Charlotte, às vezes


O ônibus escolar sempre passava por aquela rua bonita, cheia de mansões, em um bairro nobre de São Paulo.
E Luíza adorava essa rua!
A garotinha todo dia ficava olhando para aquelas casas lindas, enormes e ficava imaginando como era a vida dentro delas, querendo ter um quarto lá, um quarto de sonhos...
- Luíza, é a sua vez!
- Agora, não! Vem aquela casa que eu gosto!
Bem, ela gostava de todas, na verdade! Mas de uma em especial, uma que lembrava, por suas torres, um castelo. Pelo menos, na cabeça da menininha!
Porém, naquele dia, havia algo diferente.
As janelas estavam todas fechadas. Havia mais pessoas do que de costume, todas de preto, quase todas de óculos escuros. E um carro preto, grande, diferente dos que Luíza via na rua normalmente, com uma traseira muito grande e fechada, saía pelo portão, seguido por outros carros.
Luíza era muito pequena para saber o que era aquilo.
Mas o que ela mais guardou da cena foi uma garota de longos cabelos castanho-claro, com uma roupa que parecia de escola européia (como Luíza tinha visto em filmes), um vestido cinza, com meias brancas, sapatos pretos, gravatinha. Essa menina de pele clara dirigia seus grandes olhos negros para todos os que passavam por ela.
E todos pareciam ignorá-la. Passavam tão perto e não expressavam nada.
Luíza ficou com pena da menina.

Nas semanas seguintes, o ônibus continuou passando por lá. Luíza, de vez em quando, via a menina, lá no portão, no mesmo lugar. Com a mesma roupa.
Um dia, Luíza acenou para ela. E foi correspondida.
Mudou o ano, e a garota de olhar sério ainda estava ao lado do grande portão. Luíza ainda a cumprimentava, quando a via. Ela ainda respondia.
Luíza saiu do ônibus escolar, ao chegar à quinta série. Começou a voltar para casa de ônibus de linha. Passava, agora, numa travessa daquela rua bonita. E, como a rua era em curva, ela não conseguia ver a casa. Só passava em frente à ela raramente, agora, de carro, quando estava com os pais ou, posteriormente, de carona com as amigas, voltando das baladas.
E, para a surpresa de Luíza, ainda via a menina, de vez em quando, ao lado do portão. E ainda trocavam acenos.
Estava lá.
A menina, às vezes.

Quinze anos se passaram, desde que a pequena Luíza presenciara o funeral, sem saber do que se tratava. Ela se tornara uma bela moça, de longos cabelos pretos, brilhantes, que muitos diziam ser cabelos "de japonesa", embora ela não tivesse ascendência oriental. A única coisa que lhe atrapalhava a beleza eram as olheiras, adquiridas na época da faculdade e mantidas pela vida adulta.
E ela nunca andou a pé por aquela rua bonita.

Até que, um dia, voltando do escritório, ela resolveu fazer diferente.
O ônibus que tomava, agora, passava também por uma travessa da "rua das mansões". Luíza sempre ficava olhando para lá, com saudades da "sua" casa...
Mas era sexta-feira! Ela não precisava ter pressa! Não tinha que chegar em casa e deixar tudo arrumado para a manhã seguinte, também! Sem falar que não tinha compromisso para a noite. Aliás, com todas as amigas se casando, as companhias para sair estavam ficando cada vez mais raras!...
Enfim, ela desceu no ponto seguinte ao cruzamento com a sua rua favorita. Respirou aliviada, pelo pequeno ato de liberdade! E se pôs a andar.
Havia garoado, durante a tarde. O chão estava molhado, o céu, cinzento, o tempo, um pouco frio, fazendo aquele clima que Luíza considerava agradavelmente paulistano, o que ela simplesmente amava! Perfeito para um passeio numa rua daquelas!
E foi aí que ela se tocou que ela nunca havia passado a pé, por lá! Apesar de ter praticamente decorado, em outros tempos, todas as casas e árvores do lugar e de ter percebido algumas mudanças, ao passar de carro, parecia que tudo era estranhamente novo! A única coisa que a perturbou, contudo, estava nela mesma: apressada em chegar à mansão de sua infância, ela estava andando muito rápido! Aí, ela se conteve: queria curtir tudo! Diminuiu o passo.
Respirava o clima, respirava o lugar, respirava o passado, respirava o momento...
E chegou, finalmente, à casa!
Parecia tão maior, tão mais linda!... Ai, como ela queria morar ali!
Luíza atreveu-se a chegar perto do portão, apesar da guarita. Dentro do terreno, viu um grande jardim, uma estufa e um "apêndice" de vidro que saía, todo em vidro, de uma das paredes da casa, projetando-se em direção ao jardim...
Lágrimas vieram aos olhos da menina, moça, mulher...
E lembranças, tantas lembranças...
- Como foi que eu não vim aqui antes? - ela se perguntou, pensando em voz alta.
O tempo pareceu ficar ali, ao lado dela, também admirando a mansão...
(Luíza queria, na verdade, que ele voltasse pra trás!)
Até que:
- Miau!
- Hum?
Surpresa, Luíza olhou ao redor, procurando a origem do miado. Num dos parapeitos das grades que havia nos intervalos do muro, ela viu uma gatinha (e era gata mesmo, pois era tricolor).
- Tinha que ter um gato, não?
- Miau?
Longe de ser uma reclamação: Luíza adorava gatos! O comentário vinha do fato de ela achar que eles eram onipresentes! Afinal, para onde quer que ela olhasse, tinha um gato! Casas, lojas, revistas ,discos, quadros,... Bem, era o que ela achava...
De qualquer forma, ela sentou no parapeito, ao lado da gatinha, fazendo carinho nela...
- Você é muito fofa, sabia?
- Miau...
- Ai, eu queria tanto um gatinho em casa... Pena que meus pais não deixam...
E a gata, folgada como só um felino sabe ser, subiu no colo de Luíza, na maior sem-cerimômia...
- Você não se acha muito abusada, não, hein, sua danadinha? Fofa!
E ficou acariciando a gata, acariciando...
- Ai... - bocejou - Bem que dizem que gato dá... sono...
E adormeceu.

Venha... Venha me ver!... Eu preciso falar com você!...

Quando deu por si, Luíza estava num enorme cômodo. Um que terminava numa meia-cúpula de vidro. Com vista para um jardim!
- UAU!! O que é isso?!? Onde é que eu 'tô?!?
Ela ficou embasbacada diante do luxo que ora se apresentava aos seus olhos! Móveis, peças de arte,...
Tanto que demorou a perceber que, sob a redoma de vidro, estava alguém pintando um quadro.
- Ah, olá! Eu... Meu nome é... Luíza, e eu...
Não houve resposta, nem reação.
- Oi?
Luíza olhou melhor. Percebeu que o artista era uma menina, talvez menos de dez anos. Mas percebeu os olhos profundamente negros (e tristes), o cabelo castanho impecavelmente penteado...
- Ei! Peraí, você parece...
- Filha?
De susto, ela olhou para trás. Havia uma mulher com aparência austera, cabelo em coque, cerca de 40 anos.
- Ah, oi,... Me-meu nome é Luíza... Desculpa eu ter entrado assim...
Mas a mulher passou por ela, como se não a tivesse visto (e não a viu), dirigindo-se para a criança.
- Já terminou?
Sem desviar a atenção da tela, a menina meneou.
- Bem, apresse-se! Não falta muito para a recepção do embaixador, e você ainda deve se arrumar.
- Vai ser naquele lugar onde as outras pessoas dançam?
- Também conhecido como "salão de baile". Sim.
Ainda com a mãe parada atrás de si, examinando o quadro com um ar de quem não estava gostando (por esperar mais), a garotinha se voltou para Luíza e disse, com uma seriedade incompatível com a idade e traída pelo olhar:
- Isso é muito triste, não?
Antes de alguma resposta, tudo se desfez em luz.

Miau!...

- Moça?
Luíza acordou aos cutucões de um segurança muito mal-humorado, já com alguns cabelos grisalhos. Usava um terno preto, enormes óculos escuros e um headfone. Típico.
- Ah, eu... eu... - ela estava era roxa de vergonha!
- Aqui é uma propriedade particular.
- Sim, eu sei... mas é que... que eu fiquei fazendo carinho nesta gatinha e...
Aí, Luíza percebeu que não havia mais gata!
- Gata? Onde? - disse o segurança, sem disfarçar a ironia na voz.
- Ah... eu... mas tinha... eu... FUI!
Ela praticamente saiu correndo!

Luíza não conseguiu tirar aquilo da cabeça! Passou o fim de semana todo matutando sobre o sonho, tão curto e tão preciso, diferente do que os sonhos costumavam ser! Também pensava naquela gata e, bem, sobre ter sido expulsa daquele jeito! Afinal, a sua primeira visita pessoal à casa que tanto admirara, a vida toda, havia terminado com uma dura de um segurança, um vexame tremendo!
Na segunda-feira, da janela do ônibus, ela ficou olhando para a rua...
Na terça, ela desceu da condução e foi até a casa bonita. Temerosa.
Foi para o outro lado da rua, não só para ter outra visão, mas para não atrair a desconfiança dos guardas. Parecia que o caminho não tinha mais fim, que a mansão não chegava mais! E era impossível admirar qualquer beleza. Nervosa.
Até que, de novo, chegou à "sua" mansão. Olhou para ela, respirou fundo, tentou se acalmar, para poder, quem sabe?, trazer de volta a sensação de arrebatamento, aquela sensação de maravilha que a tomava antigamente, diante de toda aquela beleza...
Fechou os olhos, inspirou...
E, quando os abriu, havia alguém acenando para ela!
A menina estava lá! Aquela mesma menina que Luíza crescera vendo, às vezes, no mesmo lugar de sempre!
Os olhos também negros de Luíza se arregalaram, o coração disparou. Mesmo da outra calçada, podia ver que ela não parecia ter mais de 17 anos, se chegasse a tanto! Mas era impossível, após todo esse tempo...
Luíza teve medo! Medo e vergonha!
Mas era a chance, não era? A chance de resolver essa pergunta deixada no ar desde o primário...
Portanto, ela novamente respirou fundo e também acenou. Timidamente.
Do outro lado da rua, o rosto sério e os olhos tristes tentavam um sorriso, como resposta.
Luíza achou que era cordialidade suficiente e atravessou a rua. Tremendo.
- Oi!...
- Olá.
Ela percebeu, nos olhos da menina, uma ansiedade controlada. O semblante era apenas uma fachada.
- Puxa, eu... eu passo nesta rua há anos... e... tipo, desde que eu era pequena e... quase sempre te vejo aqui!...
- Eu estou sempre aqui. Apareço, às vezes.
- Você... conhece alguém da casa? É parente?
- Eu moro aqui.
- JURA?!? - Luíza abriu um grande sorriso - Ai, que máximo!! Eu sempre fiquei olhando prá essa casa, imaginando como devia ser aí dentro! Deve ser um sonho!...
- Garanto-lhe que é bem real.
Luíza piscou os olhos, estranhando a resposta. A menina, final e fracamente, conseguiu sorrir. Estendeu a mão:
- Meu nome é Charlotte.
- Ah... prazer, Luíza! - e respondeu ao cumprimento.
A primeira coisa que sentiu foi que a mão de Charlotte era gelada. Muito! Mas não era! Havia um tipo diferente de calor, uma energia bonita, gostosa de sentir... dava um certo conforto... um aconchego...
E, ao mesmo tempo, implorava carinho, afeto! Buscava uma ligação, um vínculo!
Charlotte encerrou o aperto de mão. Luíza deu uma piscada, como se despertasse de um sonho. Que pena, encerrar aquele toque tão gostoso...
A moradora da casa se dirigiu ao parapeito e sentou-se. A visitante foi atrás, sentando-se também.
- Puxa! - disse Luíza - É tão estranho te ver pessoalmente! Eu praticamente cresci te vendo!!
- É verdade. Você era pequeninha, quando começamos a nos comprimentar.
- Lembro que a primeira vez que te vi foi um dia que teve um funeral, aqui...
- Ah, você chegou a ver aquele dia?
- Sim, na verdade, o meu ônibus escolar sempre passou aqui! Mas só te vi a partir daquele dia!
- Eu nem percebi o ônibus passando, na hora...
- Bom... você estava com outras coisas na cabeça, eu acho... Afinal, enterro de parente, né?...
- De fato. Mas não era enterro de parente meu.
Antes de perguntar de quem era o funeral, Luíza se ajeitou. E, nisso, algo caiu da sua bolsa.
- O que é isso? - perguntou Charlotte, apanhando o objeto.
- Ah, isso? É meu MP3 Player! - disse Luíza, alegremente.
- Um o quê?
- Ah... puxa, é um... um aparelhinho que serve para ouvir arquivos de música baixados da internet! Toca WMA, também, não só MP3!
- O que é MP3?
- Ah... é um arquivo, um tipo de arquivo de música.
- Um arquivo de música... como uma partitura?
Uau! Que estranho! - pensou Luíza.
- Ah, você... nunca baixou música da internet?
- Baixar... música? Como se pode baixar uma música? Está se referindo ao volume?
Luíza fez o seu melhor para segurar um olhar do tipo "de que planeta ela veio??". Não conseguiu.
- "Baixar música" é pegar as músicas na Internet...
- Internet?
Ok, AGORA eu fiquei preocupada!
-
Olha, hum... o importante é que dá prá ouvir música com ele! É só pôr esses fones de ouvido!
- Essas bolinhas são fones de ouvido? São tão pequenos!
- Ah... sim, são! E tem um som ótimo! Ouve só!
Luíza delicadamente colocou os fones em Charlotte (sem perceber que ela sorrira) e ligou o aparelho. A música fluiu.
- Incrível! Uma caixinha desse tamanho toca música, e com uma qualidade de som maravilhosa!
- É! E, aqui, ele mostra o nome do artista, da música e do álbum!
- Fantástico! Ele tem uma pequena televisão!... Mas quem é Franz Ferdinand?
- Ah, é um grupo escocês! Eles já estão no segundo álbum! Essa aí que está tocando, "The Fallen", é uma das minhas favoritas deles!
- Não os conheço, mas gostei da música!... Há outras, neste dispositivo?
- Siiiim! Eu coloquei mais de 500 músicas, aí, é...
- 500?!?!? - os olhos de Charlotte se arregalaram - Mas isso seriam... Um LP, em média, tem 10 músicas! Isso seria praticamente uma prateleira cheia deles!
Luíza ficou muda até em pensamento. Fazia muuuuito tempo que não houvia falar em LPs! Sem falar que a comparação mais lógica seria com CDs! Mas ela achou melhor ficar quieta a esse respeito. Até porque Charlotte continuava entusiasmada:
- Incrível, incrível mesmo, Luíza... Como eu faço para ouvir as outras músicas?
- Ah, você... mexe esse botão, aqui. Isso, assim. Ele mostra a lista de músicas. Aí, você vai descendo na lista com esse outro botão... Isso! Aí, você aperta o botão, quando a música que você quiser estiver destacada!
- Puxa... eu não conheço nenhum desses nomes... Ah! The Cure! Eu me lembro deles!
- Gosta?
- Gosto. Mas não podia ouvir em casa. Minha mãe não deixava... Eu ouvia na casa das minhas amigas, nas raras vezes em que ia visitá-las. E nas rádios, quando minha mãe não estava em casa. Meu pai também queria que eu ouvisse outras coisas.
- Oh, sim, o velho "cabo-de-guerra" entre pais e filhos, né? Eles só gostam de música da época deles, que nós achamos caretas, e eles acham a nossa música um sinal da degradação da juventude, etc, etc, etc,...
Charlotte não riu. Mas conseguiu sorrir. E havia gratidão no sorriso.
- Meus pais sempre me puseram para ouvir música clássica. Quando ficaram sabendo que eu tinha aptidão artística, me ensinaram a pintar.
Nisso, Luíza arregalou os olhos e teve um calafrio! Lembrou-se do sonho/visão que tivera na sexta-feira anterior, com a gata no colo! Mas, antes que pudesse dizer algo a respeito, Charlotte continuou:
- Depois, foi o balé, o piano, o violino...
O semblante da garota ficou triste. Luíza teve pena dela e deixou prá lá o papo da gata.
- Sabe, Charlotte... Isso é medo de... de não dar uma educação decente, de não... medo de falhar como pais!
- Ficávamos pouco tempo juntos... E, quando estávamos juntos, eu tinha que ficar dando demonstrações da minha habilidade... Quando havia visitas, então...
- Não fique magoada com eles!
- Já estou.
- Eles não fizeram por mal!
- Eu sei. Mas tudo poderia ter sido diferente!
- Ei, garota, calma! A gente sempre... sempre acha que poderia ser diferente, mas... mas saber, saber, mesmo...
- Seus pais a pressionavam muito?
- Ah, não muito! O de sempre, né? Notas boas na escola, não voltar tarde... Mas eu nunca fui uma estudante exemplar! E adorava sair de balada!
- Balada?
Luíza sorriu, ante a inocência de Charlotte! Olhou para ela com carinho e compreensão!
Coitada, deve ter passado a vida trancada nesta casa!... Mas, caramba, como ela não ouviu falar de internet??
Charlotte olhou bem nos olhos de Luíza. Havia gratidão.
- Eu me abri mais com você, nesses poucos minutos juntas, do que com os meus pais, a minha vida toda! Obrigada, Luíza, obrigada mesmo!
E a menina de longos cabelos castanhos pousou sua cabeça no colo de Luíza, que percebeu, imediatamente, o pedido desesperado por carinho! E correspondeu com um abraço.
- Fica fria, Charlotte, que tudo vai ficar bem!...
Então, pensou Luíza, essa a história de Charlotte!
Mais uma história de incompreensão entre pais e filhos! Mas ainda havia alguma coisa estranha nisso tudo!
Luíza até tentou pensar no que era. Mas o carinho que ia e vinha de Charlotte, mais aquela misteriosa energia fria e quente, a fizeram relaxar... parecia que seus pensamentos estavam lentos... ela se sentia leve...

É hora de colocar a última peça, Luíza...

A próxima coisa que ela reparou é que estava num quarto GRANDE! Grande e lindo! E muito claro, todo branco! Sem falar de abarrotado de bonecas, bichinhos de pelúcia, caixinhas de música, enfeites...
Havia também um piano. E um cavalete de pintura. E um violino. E quadros com bailarinas.
- Ó, Céus!...
E uma grande cama cercada por cortinas. Olhando para lá, ela percebeu que havia alguém deitado e duas pessoas de pé, ao lado da cama.
Luíza tremeu toda! Teve um pressentimento do que encontraria lá. Aproximou-se. Contornou a cama. Viu.
Charlotte estava deitada. Parecia estar com a mesma idade de sempre, mas estava magra e pálida. A seu lado, sua mãe, parecendo mais velha e mal-humorada. Havia, também, uma camareira. Que talvez fosse uma enfermeira.
- Filha, você já está aí há mais de uma semana.
- Mãe...
- Madame, ela ainda não está bem...
- Deixe-nos a sós.
- Mas...
- Saia!
- Si-sim, senho-nhora!
Luíza sentiu seu medo ser sobrepujado pela raiva! Puxa, a mãe de Chalotte não precisava fazer isso!
- Filha, você está perdendo aulas! Você já perdeu a audição da semana passada e...
- Mãe, por favor,...
- ... vai perder também a desta, se prosseguir com isso! O médico já disse que isso é emocional. Portanto, reaja! Seja forte! Para o futuro que você vai ter, tem que ser forte! O mundo não perdoa os fracos! E eu também não!
Antes de que a invisível visitante começasse a dizer umas poucas e boas, alguém bateu na porta.
- Sim?
- Madame, o Doutor Oliveira está aqui.
- Peça para entrar, por favor.
Conforme o médico entrava, no entanto, Luíza percebeu que tudo estava começando a ficar embaçado. Todas as faces, todas as vozes. Menos uma face, uma voz.
A de Charlotte.
A menina se virou para sua amiga e disse:
- Eu não vou ficar boa.
Nisso, tudo acabou em luz.

E foi isso, Luíza...

- Moça, eu sei que o muro é confortável, mas você não pode dormir aí!
Luíza acordou, piscando muito os olhos. Estava novamente sentada no parapeito do muro. Charlotte não estava mais lá.
Ou melhor, estava, sim! Luíza tinha entendido o que estava acontecendo. Sabia porque Charlotte estava ali, aqueles anos todos, porque ela ainda não tinha envelhecido, porque ela ainda falava em LPs, que tipo de relacionamento ela não tinha com a mãe dela...
E, principalmente, sabia de quem era o funeral que ali presenciara há cerca de quinze anos...
Começou a chorar. Tentou ficar de pé, mas não conseguiu, pois estava com as pernas bambas.
- Moça?
E sentia porque Charlotte ainda estava lá: ela precisava resolver as coisas com a mãe! Ela estava presa na sua própria casa, por conta daquela situação mal-resolvida!
Luíza olhou para o segurança. Era o mesmo da outra vez. Ia ter que servir!
- Aqui... morava uma garota chamada Charlotte, não?
O segurança arregalou os olhos. Há quanto tempo não ouvia esse nome! Era algo que proibido, por lá!
- Sim, mas... faz tempo, ela... ela...
- Ela e a mãe não se davam bem, né?
- É, bem...
- Tipo, a mãe punha muita pressão nela...
- É...
- E, um dia, a Charlotte caiu doente, certo?
- Si-sim, vieram os melhores médicos e... e...
- E não adiantou nada!
- É, ela morreu... Foi rápido...
- Eu lembro do funeral dela! Meu ônibus escolar passava por aqui, há quinze anos! Eu vi, mas não entendi nada... Eu era muito pequena!...
- Eu... - a voz do segurança ficou baixa - Eu já estava aqui desde que a senhorita Charlotte era bebê... Nós mal a víamos... Ela ficava lá, dentro do vidro, tão linda... Raramente saia no jardim...
Luíza olhou bem nos olhos protegidos do segurança. Podia adivinhar a tristeza, atrás das lentes escuras.
Era hora de tocar no ponto nevrálgico!
- Me diga uma coisa,... Depois de a Charlotte morrer, aconteceram coisas estranhas, na casa?
- Ih, moça, teve piano tocando, teve porta abrindo sozinha... EI!! Espera, espera, quem é você, afinal?!? Se você era tão nova, como sabe tanto da senhorita Charlotte?? Andou estudando?? Qual é o seu interesse nisso?!?
Ok, foi cedo demais...
- Bom... dizem que... quando as pessoas morrem... e deixam coisas por fazer, por resolver... Elas... não vão embora!...
O segurança olhou, desconfiado. Mas, no fundo, sabia onde Luíza sabia chegar! Só não sabia porquê. Mas ele havia presenciado e ouvido coisas muuuuito estranhas, naquela casa! Depois que Charlotte tinha morrido!
- Ah, mas...
- Piano tocando sozinho? Não teve violino, também?
- Mas como você sabe???
- Ela tocava violino, também, não?
- Mas... mas toda moça prendada, de família rica...
- Tá, tá, eu sei!! Mas, escuta, essas coisas aconteceram logo depois que ela morreu, não?
- Sim, mas..
- E ninguém nunca viu nada?!? Nem a mãe dela??
- Bom,... a... a Madame, ela... ela foi até fazer tratamento, depois...
- Tratamento? Ela viu, então...
- Bom, disseram que foi por causa de tristeza, mas... Mas disseram, né, que ela... que ela andava vendo a filha dela!
- E... e passou?
- Ih, foi um ano disso! Mas passou!
- Então, é isso!!
- Isso, o quê??
- Vocês não vêem porque não acreditam!!
- Ah??
- Ela tentou se mostrar!! E todo mundo fingiu que não via!! Por isso, não viam!! E ela... Bom, eu não sei como funcionam essas coisas, mas isso deve ter afetado a capacidade dela de aparecer pros outros... Ou ela desistiu de aparecer, mesmo...
- Ah?!?
- Mas eu, como não sabia o que estava acontecendo, desde o início, conseguia ver!!
- VOCÊ O QUÊ?!?
Luíza respirou fundo. Tinha cometido um ato falho! Ainda não era hora de dizer... Mas, agora, não sabia mais o que fazer, como falar com ele. Só sabia que ele não ia acreditar, mas...
- Você se lembra de sexta passada, quando eu também dormi aqui?
- Sim, lembro, da história da gata,...
- Ó, presta bem atenção no que eu vou falar...
E ela contou tudo, desde o ônibus escolar, na verdade! Contou de todos esses anos que passara por lá, contou da gata, dos sonhos,...
- Não, moça... Isso não é possível...
- É!! Eu estava aqui, agora há pouco, conversando com a Charlotte!!!
- Ah, num dá pra acreditar nisso!...
- Mas é verdade!! Ela tá presa aqui nessa casa, por causa do rancor que tem pela mãe!! Ela precisa falar com a mãe dela!!
- Ah, pára com isso!!
- Ela precisa se entender com a mãe, prá poder descansar em paz!!
- Ah, tá, e o que você quer que eu diga prá Madame?!? Que a filha dela está esperando no hall?!?
- Poxa, em você, ela vai acreditar!!
- Mas de que jeito?!? Eu não tenho como provar!! Nem sei se eu acredito nisso!!
- Ah... Tem um jeito de saber...
- Hein??
- Olha ali...
- Moça, esse golpe é velho!...
- Não é golpe, Marcus.
Desta vez, foram as pernas do segurança que bambearam. Ele olhou. A menos de dois metros, estava Charlotte!
- Olá, Marcus.
- OH, MEU DEUS!!!!
Seguiu-se um instante de silêncio. Ninguém se moveu ou disse nada.
- Mas... deve ser... só pode ser um truque!!
Como resposta, a menina-fantasma se aproximou e tocou o braço do segurança. Que ficou lívido!
- Marcus, por favor. Eu preciso falar com a minha mãe. É importante.
- Ma-ma-mas...
- Por favor.
Os olhos de Charlotte eram pura súplica! Marcus, sem mais, ele acionou seu headphone:
- Alô, Mendonça? Mendonça, fala prá Madame descer, que eu preciso falar com ela! É urgente!!... Não me interessa se ela tá tomando chá, se tá falando com alguém, se tá jogando futebol, eu preciso falar com ela AGORA!!! Diz que é... sobre a filha dela!! É, seu tonho, é isso mesmo!! Chama ela!! Já!!!

Finalmente, Luíza atravessou os portões da casa bonita de sua infância!
I nfelizmente, a sensação não era a que esperava. Como a situação, aliás! Ela sempre se imaginara entrando lá, toda chique, para um luxuoso baile em que encontraria o príncipe encantado...
Mas não era exatamente isso que estava acontecendo!
Quanto a Charlotte, ela estava com um início de sorriso, no rosto. Passara os últimos quinze anos sozinha naquela casa. Novamente, tinha a sensação de estar sendo vista por outras pessoas! E, agora, iria finalmente falar com sua mãe! Era o fim da solidão!
Não andaram muito e encontraram a Madame no hall.
E Luíza jamais esqueceria do olhar que recebeu dela! Era forte, intenso, raivoso, violento, dominador, convencido, poderoso, superior! Contribuia para torná-la mais assustadora o fato de que ela parecia ter envelhecido bem mais que os quinze anos que haviam se passado! Entretanto, ainda parecia saudável e tinha lá seu charme!
De qualquer forma, Luíza ficou tão impressionada que pensou alto:
- A mãe da Charlotte...
Como resposta, um olhar de desprezo e isto:
- Isso foi há muito tempo, garotinha! Marcus, o que esta menina está fazendo aqui?
- Eu... Meu nome é Luíza e...
- Marcus, o que esta menina está fazendo aqui?
Antes de que Luíza protestasse, o segurança fez sinal para que ela mantivesse a calma, pelo amor de Deus! Ela engoliu o orgulho e a raiva e assentiu. Cuidadosamente, ele começou a explicar o que estava acontecendo.
Enquanto ele falava, Charlotte tinha os olhos fixos em sua mãe. A ansiedade era gritante! Luíza, por sua vez, observava as duas. Elas não eram lá muuuuito parecidas. O "formatão" do rosto era mesmo... E pensando bem, os olhos da Madame...
E foi ao reexaminar os olhos dela que Luíza viu que eles fizeram um movimento inesperado! Eles, por menos de um segundo, se desviaram de Marcus! Mas não foram para a visitante!
I mediatamente, Luíza olhou para Charlotte, os olhos esbugalhados, só para perceber que a menina também a olhava, com espanto e esperança no rosto!
- Luíza, ela me viu!!
Nesse instante, a Madame interrompeu a explicação:
- Muito bem, Marcus, já basta. Tire essa menina daqui!
- Ma-mas, Madame, eu...
- Eu disse para tirar essa menina daqui!
- Ma-madame... Ela me to-tocou!... Eu senti!...
- Você está surdo?? Eu disse para tirar essas duas daqui!!!
A cena congelou!
O rosto da Madame havia empalidecido instantaneamente! Passara da raiva para o espanto! Charlotte arregalara mais ainda os olhos já úmidos! Luíza estava tremendo, com o queixo no chão! E Marcus... bem, ele nem sabia como reagir!
Quando algo voltou a acontecer, foi a Madame se levantando, tentando se recompor (sem sucesso) e, indo em direção à escada, dizendo:
- Marcus, tire essas duas daqui.
Mas a voz saiu fininha, sem força, sem autoridade, sem pose,...
Só o suficiente para Charlotte sair do transe!
- Mãe! MÃE!
Rapidamente, ela se colocou na frente de sua mãe. Que parou, mas não lhe dirigiu o olhar.
- Mãe, a senhora está me vendo?
A Madame respirou fundo...
- Sim, estou...
- Oh, mãe, eu esperei tanto...
- Foi difícil, no primeiro ano.
- Mãe, eu preciso da senhora, preciso tanto...
- Eu comecei a achar que estava ficando louca! Mesmo com os tratamentos, eu não conseguia parar de te ver!
- Eu estava tentando...
- Mas, aí, eu percebi que os empregados também estavam percebendo coisas estranhas acontecendo pela casa, e vi que não era loucura minha. Você ainda estava por aí, assombrando a casa.
- Eu só queria...
- E eu fingi, para todo mundo, que não estava mais vendo nada, porque, afinal, tudo do que eu não precisava era da fama de maluca! Tenho um nome por que zelar! Seria péssimo para os negócios!
- Mãe?
- E também pensei que, quem sabe, se eu te ignorasse, você simplesmente fosse embora! Funcionou em parte! Pelo menos, você ficou mais discreta!
- Ma-mas...
- Mas você continuou agarrada à minha saia, não? Mesmo depois de morta! Eu queria um menino, mas como é que eu poderia escolher? Você já era fraca quando viva...
- O QUÊ?!?
Algumas portas e janelas se escancararam.
- Você estava me vendo?!?
Os móveis começaram a tremer.
- Esses anos todos, VOCÊ ESTAVA ME VENDO?!?
Vidros e cristais trincaram.
- VOCÊ ESTAVA ME VENDO E ME IGNORANDO?!?!?!?
A iluminação falhou.
- EU NÃO ACREDITO!! NÃO!! NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!!!!!....
O grito da menina logo se tornou um urro inumano que estilhaçou tudo o que era feito de louça, vidro ou cristal! Da enorme meia-cúpula de vidro, sobrou apenas a estrutura! Portões e janelas foram escancarados violentamente, alguns arrancados de seus lugares! As lâmpadas estouraram, todas!
Foi um caos tamanho, que Luíza conseguiu sair correndo, no meio dos seguranças que entravam, das empregadas que gritavam, dos móveis que se quebravam, das estantes que iam ao chão, das ordens que eram seguidas por contra-ordens...
Luíza corria cada vez mais rápido! Chegou ao enorme portão e o encontrou derrubado, como que arrancado por uma grande e poderosa mão! Nem parou para observar! Corria e chorava! Cada vez mais!
Correu e chorou tanto que ficou dois anos sem aparecer por lá!

Nesse tempo todo, Luíza teve pesadelos recorrentes. Começou a tomar outro ônibus, para não passar sequer perto da rua, mesmo que demorasse mais para chegar em casa! Só para não passar mais na rua bonita!
Ganhou uns fios brancos no cabelo. E olheiras mais profundas.
Na parte das notícias boas, ela foi promovida, teve aumento de salário e comprou um carro, após algum tempo, o que possibilitou que ela continuasse sem passar perto da casa de Charlotte! E também começou a procurar um apartamento para morar sozinha.
Mas nada disso diminuía a sensação de culpa!

Até que um dia, num garoento sábado à tarde, Luíza estava voltando para casa, quando acabou passando numa travessa da rua bonita! Não era o que pretendia conscientemente.
Logo que passou o cruzamento com a rua, ela parou o carro. Há quanto tempo não via aquele lugar...
Encostou a cabeça no volante e chorou! Muito, por muito tempo! Pensou em Charlotte, pensou em todos os anos que havia passado por lá, pensou em como a menina havia confiado nela...
E foi aí que se tocou!
- Oh, MEU DEUS!!!
Também para ela, a situação estava mal-resolvida! Também ela estava presa àquela casa, ainda que não fisicamente!
E, mais importante, também ela estava fazendo de conta que Charlotte não existia!
Isso, não! Tinha que resolver isso! Tinha que ir lá e ajudá-la! Mesmo que uma parte de si torcesse muito para que a fantasma não estivesse lá!
Deu a ré, entrou na rua e foi até a casa!
Era desolador: as janelas ainda estavam todas arrancadas, o jardim estava abandonado, havia sujeira, detritos, por todo o lugar! Luíza deduziu logo que ela não havia sido a única a nunca mais pisar por lá!
Parou o carro em frente ao portão - um outro, mais novo e rústico. Desceu. As lágrimas voltaram aos olhos.
- Moça?
Olhou, lembrando-se de Marcus. Não era ele. Mas um moço com blusão de nylon.
- Eu... eu...
- Interessada na casa?
- De certa forma, sim...
- É a primeira pessoa, em meses, que aparece aqui!
- Puxa, mas... ah... nunca mais ninguém veio aqui??
- A senhorita sabe o que aconteceu aqui?
- Eu... ouvi rumores!
- Faz uns dois anos! Dizem que o fantasma da filha da dona da casa apareceu, ficou sabendo que a mãe não gostava dela e destruiu tudo!! Todo mundo fugiu daí, na mesma hora!
- Naquele dia? Nunca mais ninguém entrou aí??
- Bom... tem umas histórias, né? De gente que tentou entrar e quase levou sofá na cabeça, essas coisas! Eu estou aqui a pouco tempo! Uns três meses, a imobiliária me mandou! Mas não conseguem vender isso, de jeito nenhum! Tão dizendo até que vão demolir! Mas devia ser uma casa linda!...
- Era... era sim...
Luíza encostou a cabeça no portão e começou a chorar mais forte. Quer dizer, então, que Charlotte havia passado os últimos dois anos ali totalmente sozinha?? Realmente sozinha, desta vez??
- Moça, o que foi?
- Ah... um assunto... que não foi resolvido!... Ah, Charlotte, me perdoa!...
Luíza sentiu seus pulmões cheios de culpa. E gritou:
- CHARLOOOOOOOOOOTTEEEE!! SOU EU, A LUÍZA!! ME DEIXA ENTRAR! EU QUERO FALAR COM VOCÊ!!
Nada.
- Mo-moça, o que é isso??
- CHARLOTTE, POR FAVOR!!! EU QUERO TE VER!!
Nisso, o cadeado se abriu.
- EPA!! O que é isso?? - assustou-se o moço.
Mas Luíza mal se surpreendeu. Nem quando o portão se abriu, para lhe dar passagem!
E ela entrou. Caminhou vagarosamente em direção à grande porta principal. Estava fechada, mas se abriu.
Viu uma cena de filme de guerra! Destroços de móveis, quadros, esculturas, louças cobriam o chão! Tudo absolutamente empoeirado! Tudo quebrado!! Nem as peças de mármore sobreviveram! Até os degraus da escada...
Lá, no topo da escada. Lá estava ela!
Estava com os cabelos despenteados. O pouco de maquiagem que usava havia borrado. A roupa estava rota. Os sapatos, sem brilho algum.
E havia raiva no rosto!
- Charlotte??
A fantasma começou a descer as escadas.
- Não esperava mais te ver, Luíza.
- Eu... eu sinto muito, Charlotte, mas eu...
- Todo mundo fugiu naquele dia. Nem pegaram roupas, nem nada! Fugiram como estavam!
- Charlotte,...
- Minha mãe começou a mandar gente aqui, para ver se me fazia sumir de vez. Sem sucesso. Sabe, até que foi divertido fazê-los correr! Quebrou a monotonia.
- Charlo...
- Até você foi embora, Luíza.
- Eu...
- Você também me deixou!! Eu confiei em você e você me deixou!! Como todos!!!
O que restou das janelas e portas se agitou! Luíza estava com medo! Muito medo! Já tinha visto o que Charlotte podia fazer!
Mas, quando a menina disse que ela a tinha abandonado, algo surgiu! Um sentimento de injustiça! Um sentimento de estar recebendo a culpa que era de outra pessoa! E, isso, Luíza não tolerava! Ficara, de fato, dois anos sem aparecer! Mas tinha voltado! E por Charlotte!
- Não, eu não te deixei!
- Não? Estranho, eu me lembro de você sair correndo...
- Porque eu estava com medo!! A casa começou a cair em cima da gente!! O que você queria que eu fizesse?? Ficasse parada, no meio daquela confusão??
Charlotte parou de descer. A raiva em seus olhos diminui. Luíza percebeu e continuou:
- Eu entrei em pânico! Eu achei que fosse morrer! E foi por isso que eu fiquei tanto tempo longe! Por medo! Mas eu voltei, Charlotte! Voltei por você!
- Por mim?... Ou por você?
- Por nós duas!! Eu não me sentia em paz! Mas também me preocupo com você! Eu... eu cresci com você ao meu lado! Charlotte, você faz parte da minha vida!
O resto de raiva que havia no rosto da menina sumiu. Deu lugar à surpresa. O queixo enrugou.
- Eu vim por nós, Charlotte, para resolvermos isso, para sermos felizes, para você descançar, poder ficar em paz...
- Eu... Luíza...
- Me deixa te ajudar! Por favor! Você merece! Tá na hora de sair daqui!
Luíza subiu as escadas. Charlotte recuou.
- Vem aqui, garota assustada! Eu vim te ajudar!
Uma avançou em direção à outra, e se abraçaram.
- Eu não vou te abandonar, Charlotte! Não vou!
- Obrigada,... Luíza.... Você foi a única... a única... você é minha única amiga... Obrigada!... Obrigada!...
E ficaram ali abraçadas, chorando! As lágrimas de Charlotte eram intensas, mas Luíza chorava, também, chorava por aquela menina que havia morrido há tantos anos...
Ficou com pena dela! Gostava dela! E, por causa de tanta pena e tanto gostar,...
- Luíza, eu... eu sei como sair daqui!
... ela aceitou um pedido que Charlotte lhe fez, de joelhos!
Luíza hesitou. Tremeu até a alma! Era demais prá ela! Como aceitar isso?? Como ficaria, depois disso?!?
Charlotte teve muito medo de que ela não aceitasse! Mas tinha que aceitar! Era a última esperança!
Em profunda dúvida, Luíza aceitou!

Lá fora, o moço da imobiliária não sabia o que fazer!
Desde que o portão se abrira, ele ficou paralizado, olhando Luíza entrar na casa! Estava tremendo! Então, as histórias de fantasmas eram verdade!! Ele tinha visto!!
Mas e agora?? Chamava a polícia? Chamava a imobiliária?? O que fazer, o que fazer?...
Foi quando viu Luíza saindo da casa.
Ela estava andando meio bamba. Tinha os olhos muito arregalados! E estava com uma cara de profundo espanto, de profunda perplexidade...
- Moça?
Ela pareceu não ouvir.
- Moça? Vo-você tá bem?
- Hum?
- O-o-o portão a-abriu e...
- Ah... Eu tô... Eu tô bem!
- Mas...
- Tenho que ir!
Ela foi cambaleando até o carro, mas, antes de entrar nele, disse:
- Viu, você... diz pro pessoal da imobiliária que... que vocês podem entrar na casa, numa boa, agora! Não tem mais galho!
- Mas...
- E diz prá dona da casa que a filha dela não tá mais aí!
- Mas...
- Tchau!
Luíza entrou no carro e saiu, ignorando o espanto de seu interlocutor. Quando se viu sozinha, começou a chorar. Percebeu que estava sem reflexos e com as pernas fora de condições. Teve que encostar o carro.
No fundo, não acreditava no que havia acontecido.
Como sua vida havia mudado! Em uma questão de segundos, tudo o que tinha planejado para si havia sido virado de cabeça para baixo!!
Como lidar com isso? Como se ajeitar agora? E seu plano de morar sozinha? Como seria?? Como levar a vida, daí em diante?? Estaria ela pronta para algo assim?? Para algo dessa magnitude??
Num rampante, resolveu enxugar as lágrimas! Não poderia deixar a tristeza transparecer! Poderia magoar Charlotte! Dissera que iria ajudá-la, não disse? E queria, do fundo do coração, fazê-lo! Só não esperava isso! Não, isso, não!!
Respirou fundo! Tinha que se informar! Tinha que estar pronta! Mas por onde começar?? Sentia-se confusa, desamparada! Ela não sabia de nada!...
Ou melhor, sabia de duas coisas:
Primeiro, que tinha nove meses para se preparar!
Segundo, que, por mais que estranhassem, o nome seria Charlotte!
Charlotte, para sempre!

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